Caras leitoras e leitores: é com enorme satisfação que a Coluna Memorial tenta, em síntese, montar a linha do tempo do múltiplo artista do Carnaval da nossa terra Edson Evangelho Camargo. Gaúcho de São Gabriel, desde cedo se envolveu com o samba, ou melhor, com as letras e os sons. Participou da Escola Os Rouxinóis (1953- ) da cidade de Uruguaiana, sendo campeão por nove anos seguidos.

De formação militar, o 2º Sargento da Marinha transferiu-se para o 5º Distrito Naval da Capital em 1970. Aproveitando a presença na Ilha, espiava os desfiles das escolas de samba na Praça XV acompanhando atentamente o ritmo carnavalesco da Ilha. Ficou três anos por aqui, transferindo-se para o Rio de Janeiro. Por lá, começou a fazer parte da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, aproximando-se de José Pereira da Silva – o “Mestre André” (1932-1980), aprendendo as inovações do genial e consagrado ritmista e inventor da “paradinha” da bateria.
Retornou a Florianópolis no Carnaval de 1975 com a experiência da Mocidade e mostrou interesse em ingressar em uma das escolas, porém, seu desejo foi interrompido por um dirigente da Copa Lord, que não deu vez e alfinetou: “branco não sabe fazer samba”. Desiludido e com lágrimas nos olhos, não esmoreceu. Para a felicidade do samba, esbarrou em um dos ensaios da Protegidos com o presidente Hélio Norberto, que fez um convite para um teste na bateria. Era o que precisava para pegar o apito e não largar mais, tanto que passou a comandar a tradicional bateria da vermelho, verde e branco em 1976 dividindo com Mestre Rato. Obviamente, o espaço ficou pequeno para abrigar duas estrelas de 1ª grandeza. Resultado: Rato foi para outra agremiação, enquanto Camargo se firmou na Protegidos.
A partir de 1977, além de comandar a bateria, compôs todos os sambas que deram o tricampeonato da escola do Mocotó: em 1977 com “Heroína de Dois Mundos”, homenageando Anita Garibaldi; 1978, “Cruz e Souza: Alegria do Povo, Orgulho da Raça”, e em 1979, “Visita da Família Imperial a Santo Amaro da Imperatriz”. Ainda em 1979, compôs para o Império do Samba “Reis, Fadas e Rainhas” e “Imigração à Santa Catarina” para a Lufa-Lufa/Acadêmicos do Samba. Em 1980, continuou compondo para três escolas: “O Recado da Natureza” e comandou a bateria da Protegidos; pela Filhos do Continente “Domingo no Circo” e com “História Antiga dos Carnavais”, ganhou nota 10 e contribuiu para a vitória do primeiro e único título da história do Império do Samba, ampliando a coleção de troféus em sua prateleira com quatro títulos consecutivos de melhor compositor e três de diretor de bateria.

Camargo no Morro da Caixa
Numa tomada de decisão difícil e emocionada, saiu da sua amada Protegidos em 1981, sendo acolhido pelo Império de Dona Geninha, onde compôs “Ilha, Tradição e Samba” em homenagem ao poeta Zininho. Em 1982, a diretoria da Embaixada Copa Lord o recebeu de braços abertos e, em reconhecimento a brilhante trajetória e competência, deu-lhe o apito sagrado para comandar a bateria. Mestre Camargo retribuiu com o samba “O Último dos Carijós da Ilha Encantada”, bela criação e cuja letra não pode ser esquecida:
Sonhando com a ilha encantada
Junto à natureza, hoje eu vi
Carijós vivendo em tribos
Felizes, sem inimigos
A grande nação tupi
Carijó, filho forte da mata
Curacê, sol no céu a brilhar
Caiobi, curumim, cunhatã
Vem, Jaci, nos ensina a amar
Um dia, na aldeia, a notícia chegou
Que estranhas velas se aproximavam
São invasores cheios de maldade
Foi o fim da liberdade, lindo sonho que acabou
Carijó, filho forte da mata
Curacê, sol no céu a brilhar
Caiobi, curumim, cunhatã
Vem, Jaci, nos ensina a amar
E hoje, nas noites enluaradas
Iniciando a cavalgada
No dorso do boto-rei
É ele a sentinela aguerrida
Que, sem temor, deu a vida
E por acaso eu sonhei
Foi um desfile épico que fez o público cantar e vibrar nas arquibancadas de concreto da Paulo Fontes. E após seis anos de jejum, a comunidade do Morro da Caixa comemorou o título e a vitória selou a conciliação de Camargo e a Copa Lord, celebrando e reparando historicamente as partes.
Em 1983, compôs “O Maravilhoso Mundo do Pescador: Sua Vida, Seu Folclore”, com a Copa Lord ficando na segunda colocação, porém, Camargo acabou recebendo o troféu de melhor diretor de bateria. No mesmo ano, criou o samba “Alegria,Alegria” para o Bloco Energia Radiante. No Carnaval de 1984 apresentou duas composições: “Paz Universal” para o Império do Samba, e o samba “1817: Maria Engracia, a Favorita da Princesa” para a Copa Lord. Foi a última participação do Mestre comandando a bateria e compositor da amarelo, vermelho e branco.

Retornou para a Protegidos e comandou a bateria pela última vez em 1987. Alcançou destaque participando nos concursos de músicas carnavalescas obtendo diversas premiações, destacando-se o 1º lugar em 2010 e 2011 com as marchas-ranchos “Amor de Carnaval” e “Ah, Quero Viver Este Amor”, ambas interpretadas por Zinho.
Deixou um enorme legado para o Carnaval, revolucionando repiniques, breques, ritmos e composições. Em conversa recente com o autor, revelou que foi o pioneiro na introdução da tradicional “paradinha” nos nossos desfiles, criando um método que evitasse quebrar o andamento da escola, ou seja, um sistema de paradinhas dentro da letra do samba:
“O que eles fazem e falam hoje no Rio de paradona ou bossa, eu fiz na década de 80. A bateria parava e eu orientava o pessoal a continuar cantando o samba, e os ritmistas ficavam ajoelhados batendo com as baquetas de madeira no asfalto. O som ecoava pela avenida, pois a empresa de som Cotempo colocava os microfones captando. E quando a bateria voltava, era uma explosão só, uma loucura”, afirmou eufórico.
Quem viu Camargo na avenida, jamais esquecerá a desenvoltura na bateria e o encanto de suas composições. Obrigado por tudo que você ensinou e promoveu, querido Mestre.








