Marchinhas e marchas-rancho: resistência do patrimônio cultural carnavalesco de Florianópolis

Florianópolis vêm realizando há mais de 80 anos concursos e festivais de músicas carnavalescas. Apesar das dificuldades e burocracias públicas que muitas vezes impedem a realização do evento, possuímos um grupo de compositores, intérpretes e simpatizantes que lutam para manter viva a consagrada manifestação e tradição cultural. Ah, caro leitor: o gosto e apreço dos “Manezinhos e Tripeiros” pelas marchinhas, marchas-rancho e samba, formam o tríduo musical carnavalesco e constituiu a nossa identidade musical momesca cantada por gerações nas ruas e nos bailes, estando intrinsecamente ligados às nossas vidas.

O primeiro concurso aconteceu em fevereiro de 1940, idealizado pelo músico e compositor Narciso Lima e pelo artista Altamiro Dias. O inédito evento foi realizado nas dependências do Lira Tênis Clube com patrocínio do jornal A Gazeta. Ao final do certame, as composições vitoriosas na categoria marcha foram: Abelardo Sousa com o samba “Vou Me Embora” (1º lugar), Vicente Larroide com a marcha “Garota da Ilha” (2º lugar), e no 3º lugar a marcha “Rei Momo”, de Brasílio Machado.

Jornal A Gazeta, em janeiro de 1940, sobre o concurso - Acervo Alzemi Machado
Jornal A Gazeta, em janeiro de 1940, sobre o concurso – Acervo Alzemi Machado

Em 1950, o concurso “Por um Carnaval Melhor” teve a organização da Rádio Guarujá e Lira Tênis Clube, com 15 marchas e 5 sambas inscritos. A vencedora foi a marcha “Salomé, composta por Abelardo Sousa e Sálvio de Oliveira, e em 1951, a dupla arrebata o 1º lugar. Após um hiato de oito anos, o concurso retorna em 1959 e 1963, revelando novos compositores/intérpretes e que vão integrar a cena musical local nas décadas de 1930 a 1970, destacando-se: Trajano Margarida, Narciso Lima, Caldeira de Andrade, Brasílio Machado, Sebastião Vieira, João Onofre, Antônio de Pádua Pereira, Pedro Moacyr da Rosa, Cláudio Alvim Barbosa (Zininho), Ivo Gandra, Juvenal M. De Sousa, Agobar Martins, Tomaz Filho, Fonsébio, Hermínio Jaques, Abelardo Sousa, Mirandinha, Dino Sousa, Waldir Brazil, Ascendino Nunes, Nabor Prazeres, Jelta Simas, Neide Mariarrosa, Nílton Ferreira, Vilmar Garcês, Euclides Sousa, Helena Martins, Rosa Morena, Jandir Vaz, Romar do Rosário, Haroldo Lopes, José C. da Silva, Zequinha, Osmar Silva.

Jornal Diário da Tarde, de 1950, fala sobre concurso no Lira - Aervo Alzemi Machado
Jornal Diário da Tarde, de 1950, fala sobre concurso no Lira – Aervo Alzemi Machado

Ressalta-se o envolvimento à época da imprensa escrita, principalmente, os jornais A Gazeta e O Estado, que promoviam e faziam coberturas jornalísticas divulgando as composições em suas páginas, e das emissoras de rádios locais – Guarujá, Diário da Manhã e Anita Garibaldi, que veiculavam semanalmente programas com a participação dos compositores e intérpretes das marchinhas, marchas-rancho e sambas, contribuindo na popularização.

Tais gêneros estão presentes e arraigados na nossa vida cultural, tanto que uma das principais composições é a marcha-rancho intitulada “Rancho de Amor a Ilha”, autoria do genial (Zininho), e que foi a vencedora do concurso “Uma Canção para Florianópolis” realizado em 1965 e oficializado em hino da cidade em 1968.

A partir da década de 1990, os concursos de músicas carnavalescas foram substituídos exclusivamente por marchinhas e marchas-ranchos e, quando acontecem, fazem parte da semana de abertura do Carnaval. Não foram raras as ocasiões em que gestores deixaram de priorizar o evento, “esquecendo” de alocar recursos financeiros no orçamento municipal, ou simplesmente, ignorando a realização. É o que afirma o presidente da Associação dos Compositores, Intérpretes e Músicos de Marchinhas de Florianópolis (ACIMMARF), Manoel Daniel Filho, o Zinho:

“Os anos de 2013 até 2017 foram os mais difíceis, a gente nunca tinha certeza da realização do festival. Teve festival que nós (compositores) é que buscamos o patrocínio, porque a Prefeitura não tinha. Teve um ano que a Raquel Barreto e o Josué Costa articularam os contatos dos patrocinadores e buscaram os recursos. Outras pessoas ajudaram na organização do evento, ficando eu, o Amaro e a Tânia os responsáveis para correr atrás de banda, troféus… Ficava difícil fazer festival dessa forma. E uma das saídas foi fundar uma associação para não deixar a coisa ruir, para que o Poder Público respeitasse a nossa tradição”.

Músico Ivan e Zinho, presidente da ACIMMARF no aniversário de dois anos - Foto: Alzemi Machado
Músico Ivan e Zinho, presidente da ACIMMARF no aniversário de dois anos – Foto: Alzemi Machado

Resilientes, os guerreiros e guerreiras foram à luta e fundaram a ACIMMARF no dia 19 de junho de 2024, objetivando defender e fortalecer às práticas relacionadas à manutenção, preservação e fruição das marchinhas na cena cultural e patrimonial da cidade. E na festa comemorativa aos dois anos da agremiação, cerca de 70 associados se confraternizaram no último dia 19 de junho.

As interpretações e musicalidades de Amaro Costa, Ninho, Cláudio Caldas, Tânia Buch, Paulo Roberto, Nilson Nunes, Silvia Silveira, Biele, Zinho, Josué Costa, Márcia Reginato, Leila Rosa, Ivan Schmidt e Marcinho Pedrini, fizeram brotar emoção e memória. Uma das conquistas da jovem associação deu-se com sancionamento da Lei nº 11.616/2026, que institui o Dia Municipal do Concurso de Marchinhas e Marchas-Rancho, objetivando garantir a realização do evento na quarta-feira anterior a semana do Carnaval, fomentando a difusão da identidade cultural local, assegurando espaço para expressões artísticas populares e autorais.

Compositor Josué Costa no Aniversário da ACIMMARF - Foto: Alzemi Machado
Compositor Josué Costa no Aniversário da ACIMMARF – Foto: Alzemi Machado

Ao defini-las em marco legal, a municipalidade reconhece tardiamente que tais gêneros musicais constituem-se manifestações culturais e de identidade da nossa gente. Porém, é preciso reconhecer o envolvimento de personalidades artísticas, partes indissociáveis da caminhada histórica e cultural.

Sem a devida intenção de omitir nomes, cito a contribuição e o engajamento de Nelson Wagner, Edu Aguiar, Carvalhinho, Zuvaldo Ribeiro, Duda Vieira, Deto, Tuca, Rui Neves, Zanzibar Lima, Walter Santos, Wilton Pimentel, Wagner Segura, Fernanda Rosa, Cesinha Nunes, Marta Magda, Willian Farias, Débora Machado, André Calibrina, André Ventura, Denise de Castro, Leleco Lemos, Cláudia Barbosa, Jandira Sousa, Maria Helena, Sílvia Beraldo, Soninha, Bira Pernilongo e tantos outros contemporâneos que se mesclam aos compositores e intérpretes do passado, imprescindíveis na construção do presente, a quem devemos reverenciá-los.

Aniversário de dois anos da ACIMMARF - Foto: Alzemi Machado
Aniversário de dois anos da ACIMMARF – Foto: Alzemi Machado

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