Jane, a mulher que quebrou paradigmas no carnaval de Florianópolis

Caríssimas leitoras e leitores, que tarefa hercúlea deste modesto colunista: escrever sobre a genial intérprete e compositora Jane Vieira Pereira (1958-2016)! Sua biografia artística e de empoderamento não se resume em duas laudas da crônica superficial desse escriba, pois sua obra e trajetória reverberam até os dias atuais. Jane é de uma importância e relevância sem igual na música, no carnaval catarinense e no Sul do Brasil.

Jane foi pioneira no carnaval de Florianópolis – Foto: Reprodução

Vanguardista, rompeu com precisão e resistência o círculo predominantemente masculino no quesito interpretação de sambas-enredo. Ela integra a lista de personalidades que deveriam ser pautadas com maior frequência e rigor no radar de pesquisadores, o que ajudaria no rompimento das práticas de invisibilidade e apagamentos femininos presentes nos diversos segmentos e contextos históricos.

Confesso que as primeiras linhas fizeram subir o termômetro das emoções no colunista, acumulando e transbordando lágrimas. A conheci quando criança por intermédio da minha irmã mais velha, a Graça Machado. Eram colegas no Instituto Estadual de Educação (IEE) e dessa forte amizade acabaram virando comadres. Contudo, não posso esquecer quando frequentavam a praia do Balneário, e eu, a tiracolo, escutava atentamente as conversas das então adolescentes. Quantas saudades!

Além da importância educativa, o secular estabelecimento da Mauro Ramos nos presenteou revelando-a para a música. Isso foi em 1974, durante a realização do II Festival da Canção Estudantil do IEE, e a jovem intérprete – então com 16 anos -, defendeu a canção “Velha Desterro” de autoria de Graça Machado e Serginho Clímaco, obtendo o 5º lugar, apesar dos protestos e vaias do público que defendiam uma melhor colocação.

Jane quebrou paradigmas no carnaval – Foto: Reprodução

Entretanto, o 5º lugar não provocou desestímulos e, sabendo dos seus dons artísticos, seguiu em frente provando no ano seguinte que o publico tinha razão. Na edição de 1975 do III Festival do IEE, conquistou o 1º lugar como intérprete ao defender a música de autoria da compositora Fátima. Ainda em 1976, faturou o prêmio especial de melhor intérprete do I Festival Interno da Canção do Colégio Catarinense, emprestando a sua potente voz com a música “Transição”, de José Petry Neto. Já no II Festival de Músicas Carnavalescas realizado em 1976 no Ginásio Charles Moritz, interpretou “Samba no Asfalto” e “Tide, Garota Carnaval”, ambas de autoria de Edu Aguiar e Antônio Alves, e conquistou o 5º lugar com a canção dedicada à eterna sambista Nega Tide.

As vitoriosas interpretações nos festivais foram determinantes, impulsionando e projetando-a no cenário musical da cidade, abrindo os caminhos para soltar a voz nos palcos de outros eventos, entre os quais: o “Balança Povo” (1977), produção cultural com sambas e choros locais, realizado às sextas-feiras no calçadão da Felipe Schmidt; e o show “Misantropia” do Grupo Engenho, no TAC.

O premiado e talentoso compositor Edu Aguiar foi seu contemporâneo e acompanhou o ingresso no circuito musical, se apresentando com ela e outros músicos integrantes do conjunto amador “Os Bauretes”, que marcavam presença em destacados ambientes de circulação noturna à época, como as associações do Banco do Brasil, Bem Bolado (Besc), bares instalados na Beira-Mar (Vagão, Kay’skidum) e o famoso Samburá, de propriedade da excepcional Neide Mariarrosa. Edu destacou ainda: “em 1978, Jane foi convidada por uma empresa patrocinadora de um Festival de Intérpretes na cidade de Joinville, saindo premiada pela interpretação da canção Canto das Três Raças”, um clássico imortalizado na voz de Clara Nunes.

E foi com o samba que a jovem cantora nascida e criada no Balneário do Estreito veio a se identificar e consagrar, dando início a um longo e amoroso namoro a partir de 1977, quando participou do concurso de escolha do samba-enredo da Protegidos da Princesa, interpretando o samba em homenagem a Cruz e Souza, “Poeta Universal”, autoria de Edu Aguiar e Neco.

Chamou a atenção o resultado final: a música obteve a 2ª colocação, contudo, foi concedida “Menção Honrosa” de melhor letra e interpretação! E assim, seguiu estreitando laços e emoções com o Carnaval, sendo condecorada com mais um título em 1978 – o de Rainha da Banda Mexe-Mexe!

Bloco Em Cima da Hora, em1981. Na imagem: Carvalhinho, Edu Aguiar e Jane – Foto: Acervo Alzemi

Em 1981, a Avenida Paulo Fontes a recebeu interpretando com Carvalhinho o samba do Bloco Em Cima da Hora, composto por Edu Aguiar e João Carlos de Souza – “Las Vegas: Paraíso dos Sonhos”. O desfile carregou uma forte simbologia em razão de ter sido a primeira vez no Carnaval da Capital que uma voz feminina comanda uma agremiação na passarela, repercutindo até os dias atuais.

Retornou à mesma passarela em 1983, defendendo o samba composto por ela, Nazareno e Luiz Falcão – “Das Bananeiras do Libânio ao Palácio do Samba”. Além de ganhar o título de campeão, melhor samba e intérprete, o clássico e icônica canção adentrou na história da Protegidos da Princesa transformando-se em hino:

Um raio de luz iluminou
Uma idéia genial
Das sombras das bananeiras
Ergueu-se a bandeira do nosso carnaval
Triunfante na avenida
A Princesa que Libânio sonhou
Num reino de amor e fantasia
Traz pra rua a poesia que o povo consagrou
Num reino de amor e fantasia
Traz no sangue a hegemonia que Dona Didi batizou

É a Protegidos na passarela
Que coisa linda, um visual de aquarela (bis)

Hoje, no palácio do samba
Reunindo gente bamba
Dia e noite, noite e dia
Tem baianas e passistas
Mestre-sala, porta-bandeira e sambista
(Lá no céu)

“Coisas do Arco da Velha”, composição de Edu Aguiar e Falcão, foi o samba do Bloco Em Cima da Hora no desfile de 1984 sob a voz firme de Jane. Em 1986, a tradicional escola Os Filhos do Continente teve a honra de contar com a interpretação do samba político “Sonhar Não é Proibido, Proibido é Acordar”, bela composição de Nazareno e Mato Grosso. A década de 1980 foi marcada pela passagens nos blocos Consulado do Samba e Lic Gay.

Nos anos 1989 e 1990, pisou na Passarela do Samba Nego Quirido para deixar imortalizada e consagrada, entrando nos anais da Embaixada Copa Lord, com “A Vez e a Voz do Morro”, e o samba campeão – “No Comércio da Vida, Vi, Gostei e Não Comprei”, dos brilhantes mestres compositores Edu Aguiar, Celinho e Vicente Marinheiro. Em 1994, ganhou o 1º lugar no Prêmio Zininho de Música, interpretando “Joãozinho da Bahia, o Bom”, parceria com José Nazareno Amorim.

Jane cantou com a banda Stagium 10 – Foto: Arquivo

A partir de meados de 1990, deu-se início ao processo de arrefecimento da passarela, priorizando o trabalho como funcionária da estatal Eletrosul, empresa que atuou por mais de 35 anos. Teve ainda uma destacada atuação como vocalista do conjunto musical Stagium 10, participando de inúmeras apresentações em diversas cidades e nos tradicionais clubes sociais. Além do hino da Protegidos, compôs e gravou em parceria as músicas: “Vai Meu Figueira” (Nazareno e Frê), “A Turma do Figueira” (Mato Grosso e Nazareno) – em homenagem ao seu time do coração.

Nos deixou antes do combinado, precocemente aos 58 anos, no dia 10 de março de 2016. Na chegada ao outro plano, Lagartixa, Neide Maria, Zininho, Tide, Cristina, Tenente, Aldirio Simões, Luiz Henrique, Roleta, João Carlos Souza, Avez-Vous, Armandinho, Hélio Cabrinha, Arcênio, Mariazinha e uma legião de sambistas e fãs a recepcionaram num palco prateado e coube ao poeta Zininho entregar-lhe o microfone. Senhora de si, soltou a eloquente e potente vozeirão:

“O Samba não é daqui/ o samba não é de lá/O samba é de quem samba/ A qualquer hora e lugar/Nasceu na Bahia, lugar da magia/Baixa do sapateiro/Menino pobre e sofrido/Preto e desnutrido/Sem amor e sem dinheiro/Catou comida no lixo/Na rua sofreu demais/Aos treze anos partiu/Dando adeus aos mortais/Mas apesar de tudo, aqui nesse mundo/Aprendeu a sorrir/Roda de samba e terreiro, moleque faceiro/Morou bem feliz/Da Bahia magia/Dos Santos e Orixás/Joãozinho da Bahia/Tá sempre onde o samba tá.” (Joãozinho da Bahia, o Bom)”.

Obrigado, Jane! A mulher e a artista que rompeu com personalidade, competência e resiliência a hegemonia masculina das interpretações dos sambas-enredos. A intérprete que flutuava na passarela como uma legítima soberana do nosso Carnaval!

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