Museu Hilton Silva: a memória carnavalesca desaparecida

Caros leitores e leitoras, o assunto abordado pelo colunista é daqueles casos que mesclam indignação, vergonha, incompetência e desrespeito a memória patrimonial e cultural da cidade. Refiro-me ao finado Museu do Carnaval Hilton Silva, o segundo museu do gênero instituído no país e que reuniu vasto acervo, e que ao longo dos anos foi gradativamente “desaparecendo”, restando acondicionado em dois sacos plásticos no Museu do Lixo os seus “restos mortais”. 

A cidade, leia-se alguns gestores acostumados em virar as costas e destruir parte de suas belezas naturais, resolveram estender também aos bens patrimoniais, a memória e às instituições locais, e o Museu do Carnaval foi um dos alvos.

Osvaldo Gonçalves, o Dico, com as peças do Museu na exposição de 2007 na Casa do Carnaval – Foto: ND, 2017.

Instituído pela Lei nº 4.810 de 22 de dezembro de 1995 e sancionado pelo Prefeito Sérgio José Grando, homenageou Hilton Silva (Lagartixa), nosso eterno Rei Momo. Organizado num curto espaço de três meses pelo carnavalesco Luiz Carlos Santana (Luizinho Santana) – idealizador e nomeado primeiro diretor, reuniu inicialmente um conjunto de treze fantasias de luxo e originalidades doadas por Nilson Nelson Machado (Duduco), Osvaldo Gonçalves (Dico), Carlos Magno, Dirce Ramos e José Carlos Borges (Carlinhos) que foram expostas no ato inaugural que realizada no dia 20 de fevereiro de 1996, em sua sede instalada no auditório do Portal Turístico.

A cerimônia contou com a participação de autoridades, antigos e jovens carnavalescos, dirigentes de escolas de samba e das grandes sociedades, concretizando um sonho alentado em muitas conversas. Em discurso, o Secretário da pasta da cultura, esporte e turismo, Homero Gomes, declarou que “estamos abrindo uma oportunidade para que a cultura seja resgatada e dando suporte para que o Carnavam cresça e se organize”.

Exposição de abertura do Museu no Portal Turístico. AN Capital, fevereiro de 1996.

No decorrer dos anos o acervo foi enriquecido e diversificado com fantasias de desfiles e de concursos dos Bailes Municipais, estandartes, bandeiras de escolas de samba, fotografias, croquis, instrumentos musicais, maquetes de carros alegóricos, troféus, atas, cadernos de programação do Carnaval e outras peças doadas por carnavalescos e pessoas da comunidade do Carnaval.

Dentre as preciosidades do acervo destacavam-se: o primeiro estandarte, estatuto e medalhas de 1966 da Sociedade Tenentes do Diabo; um surdo de 1940 pertencente a Escola de Samba Os Protegidos da Princesa; painéis com fotografias de diversas personalidades do samba, entre os quais o pandeirista Tenente, a Cidadã Samba Tide e a Porta-bandeira Cristina Figueiredo; desenhos e croquis de decorações de rua, quadros e caricaturas elaboradas pelo artista Carlos Magno; a coroa e a fantasia do derradeiro desfile do Rei Momo Lagartixa datada de 1986; além de troféus e bandeiras de algumas escolas de samba, além de indumentárias de luxo doadas por diversos carnavalescos.

O falecimento precoce do dedicado e competente Luizinho Santana ocorrido em 1999, repercutiu e impactou as atividades futuras da jovem instituição, que passou a sofrer contumaz descaso por parte de sucessivas gestões. Um dos primeiros problemas foi a deterioração do acervo, motivado a partir da mudança da sede.

Fantasia “As Fêmeas” de Dirce Ramos, 1º lugar em 1994 e exposta na inauguração do Museu.
AN Capital. Fevereiro, 1996.

Devido a reforma do prédio, o acervo foi transferido para uma das arquibancadas da Passarela Nego Quirido, fato confirmado ao colunista pelo servidor aposentado e ex-coordenador do Carnaval Evandro Oliveira: “ele saiu do Portal Turístico devido a reforma do prédio e foi para a Passarela do Samba. Foi encaixotado e jogado num depósito, e como o local era muito úmido, molhou tudo e todos os documentos. Aí teve uma recuperação do acervo que foi no primeiro Carnaval do Dário [Prefeito], que foi na antiga Câmara de Vereadores, e o curador foi o Renato Reis, ele coordenou e contratou as pessoas para reformar as fantasias (…). Entretanto, todas aquelas roupas, existentes lá no início com o Luizinho Santana  e que estavam no Portal Turístico, logo foram perdidas assim que foram depositadas na Passarela. A traça comeu, o acervo ficou úmido, originalmente se perderam várias coisas. Ele e o Osvaldo Gonçalves montaram uma equipe ali no prédio da Câmara e tentaram recuperar algumas roupas através de fotos, fizeram cópias”. As fotos originais foram as primeiras a serem perdidas com a umidade, e não chegaram a ser expostas. Inclusive, há muita reclamação das escolas porque muitas das fotos antigas doadas pelas escolas foram perdidas. Muita coisa também se perdeu quando foi feita a transferência do acervo que restou para a Comcap. Não que o rapaz que cuidava tenha culpa, ele era muito cuidadoso, mas elas foram colocadas em sacos, caixas, ai foi perdendo (…)”.

A autarquia municipal Comcap localizada no bairro Itacorubi abriga desde 2003 o Museu do Lixo, e foi o local que acolheu o que restou do acervo em seu último estágio. Em depoimento prestado em 19 de novembro de 2018 pelo arte-educador  do Museu, Valdinei Marques, e que integra o conteúdo de um artigo científico intitulado “O que Será do Museu do carnaval de Florianópolis”, publicado na Revista Eletrônica Ventilando Acervos (Florianópolis, nº1, p.199. 2022), relatou que “as fantasias vieram dentro de um saco preto de lixo, vieram com lixo dentro, sujas, manequins todos desmontados, troféu, tudo sujo (…)”, ressaltou ainda que o acervo foi “coletado à época pelo Vereador Thiago Silva e equipe para ser levada à Passarela do Samba, e que muitos itens se perderam por deterioração, vários outros precisaram de grandes intervenções de higienização e que ainda hoje mantém duas fantasias”.

Este colunista recorda que lá pelo final dos anos 90 e início de 2000, trabalhou no projeto social Casa da Liberdade cujas instalações ficavam na parte inferior de uma das arquibancadas, e testemunhou a instalação do Museu incluindo a fixação da placa entre os módulos  da segunda e terceira arquibancada, anexas à administração da Passarela do Samba. Ressalta que o local era bastante úmido, pois as arquibancadas não eram impermeabilizadas o que resultava em gotejamento contínuo no período de chuvas, além da proximidade com a Baía Sul.

Lembra dos quadros com imagens em preto e branco retratando diversas personalidades do mundo do samba (sambistas, passistas, dirigentes,cidadãs e cidadãos sambas, músicos, carnavalescos), alguns deles com acentuadas manchas proveniente da umidade, bem como a forte oxidação nos troféus expostos. Tem lembrança de um curso profissionalizante celebrado pelo Ministério do Trabalho/SINE e AFLOV, realizado nas dependências do Museu e voltado à restauração de fantasias cujo instrutor foi o carnavalesco Paulinho.

Em síntese, foram quatro os locais percorridos desde a sua criação, Portal Turístico – Passarela do Samba – Casa de Câmara e Cadeia (Casa do Carnaval) e no estágio terminal,  o Museu do Lixo. Além das exposições permanentes que ocorreram na sede do Portal Turístico (1996-1999) e na Passarela do Samba Nego Quirido (1999 a 2004), o acervo percorreu outros itinerários sendo expostos em 2005 (curadoria de Renato Reis), 2006 e 2007 (curadoria de Dico) todas realizadas na Casa do Carnaval.

Parte do seu acervo se fez presente na exposição em homenagem aos 50 anos do carnavalesco Dico, realizada em 2007 no Teatro da UBRO, e no ano seguinte nas dependências do Palácio Cruz e Souza. Importante destacar que após 2007, as peças do acervo ficaram guardadas na Casa de Câmara e Cadeia, porém, ocorreu arrombamento do espaço, e parte das  fantasias e outras peças do acervo desapareceram.

Em 2012, é sancionado a Lei 8.844,de 20 de janeiro, que altera a lei de criação do Museu, ficando suprimido o principio original do Museu do Carnaval, alterando a redação para “poderão ser expostas no Museu, obras, fantasias e documentos relacionados aos festejos carnavalescos realizados no estado de Santa Catarina”, além de transferir o endereço da sua sede do Portal Turístico para as “dependências da Passarela do Samba Nego Quirido”. É fato que a modificação da redação da Lei não estava relacionada com novas perspectivas de revitalização do Museu, que nesse ano já se encontrava totalmente desmantelado.

O inacreditável é que diversas gestões passaram-se ao longo destes 30 anos, porém, no decorrer dos últimos 16 anos não foram implementadas ações que viabilizassem a sua  reconstrução e o efetivo cumprimento da Lei que ainda está vigente. Também desconheço quaisquer iniciativas visando à responsabilização administrativa e legal, e que deveria partir dos órgãos de controle.

A construção da Cidade do Samba  prevê em sua estrutura um espaço para o Museu, o que deve ser louvado, contudo, ainda soa como uma obra de ficção. No intuito de contribuir e criar mecanismos para a reconstrução deste importante equipamento cultural e educativo, sugiro a criação de um Grupo Técnico composto por especialistas e entidades do setor, para que conectem e sinalizem os caminhos para a efetiva instalação.  A título de sugestão e contribuir para o debate, a gestão municipal poderia disponibilizar a cessão de espaço físico no Clube Doze de Agosto, tradicional instituição com fortes vínculos carnavalescos e em condições de acolher a sede provisória, e atualmente  encontra-se alugado ao poder público municipal.

Uma das formas de manter viva a chama da tradição da coletividade consiste na criação de mecanismos que possibilitem perpetuar a sua continuidade, e os museus contemporâneos fazem parte dessa engrenagem, consolidando-se  como agentes de transformação social e difusão cultural a serviço da sociedade civil, inclusivo, aberto e promotor da diversidade e a sustentabilidade.

Defender a reconstrução do Museu do Carnaval Hilton Silva é um compromisso cidadão que possibilita e assegura a guarda, conservação e pesquisa do patrimônio material e imaterial, conectando passado e presente, além de ajudar a construir e fortalecer a identidade de comunidades regionais e nacional, valorizando histórias locais, dando continuidade às tradições do samba como patrimônio cultural, respeitando as origens negras e suas ancestralidades.

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