Os 80 anos do Brinca Quem Pode: A Escola do Povão

Durante minhas pesquisas para o meu projeto de mestrado envolvendo o carnaval de Laguna, as principais referências chegavam sempre a um mesmo lugar: Academia Carnavalesca Recreativa Escola de Samba Brinca Quem Pode. Nas minhas leituras, as histórias mais fascinantes envolvendo o carnaval lagunense o Brinca está presente.

A coluna de hoje aborda um pouco da história da escola de samba alcunhada, no livro de William dos Reis, “O Enredo dos Enredos – 65 anos de Brinca Quem Pode”, como “velha assanhada e freguesa assídua do saçarico”, que irá comemorar seus 80 anos no próximo carnaval com o enredo “Quem viveu vai lembrar, quem não viveu… Vai Brincar!”, de autoria de Bruno Matos e Lucas Silveira.

Apresentação do Brinca Quem Pode no auditório da Rádio Difusora - Foto: Livro de Willian dos Reis
Apresentação do Brinca Quem Pode no auditório da Rádio Difusora – Foto: Livro de Willian dos Reis

Em 1947, Laguna estava completando seus 100 anos como cidade, desfrutando de diversos avanços urbanos e alterações geográficas, além de duas eleições importantes. Nesse mesmo ano, nascia o Bloco Brinca Quem Pode, em 17 de fevereiro de 1947, segunda-feira de carnaval, formado por negros da Sociedade Musical União dos Artistas e do Clube Cruz e Sousa que não aceitavam serem barrados das festas da elite.

Enquanto os clubes pulsavam de uma maneira “requintada” e “reservada”, o Brinca tomava as ruas. O cenário da folia lagunense anterior a 1947 é fascinante e um caso de estudo. O brilhante William dos Reis abordou em seu livro essas questões, vale a lida!

Há de se ter em mente que já existia o bloco Xavante, nascido em 1946 no Café Tupy. O bloco virou escola e comemorou seus 80 anos em 2026. No samba-enredo, há um trecho que revela isso: “Nascido no Tupy, eu sou/Berço das nossas tradições”. De toda maneira, o grupo de fundadores do Brinca queria “brincar” um carnaval diferente do que foi em 1946, no primeiro ano do Xavante, criando uma das rivalidades mais tradicionais do carnaval lagunense.

Laguna passava a ter o contraste das folias: De um lado havia o carnaval elitizado e do outro o carnaval de rua do Brinca e Xavante, que se configuravam em cordões e se acaso se encontrassem, rolava briga. Posteriormente a rivalidade não se tornou mais tão violenta, os cordões viraram blocos e tornaram-se referência para o carnaval de rua da cidade.

Desfile de 2007 – Imagem: Livro de Willian Reis

Durante a história do Brinca, surgiram várias personalidades. Certamente a figura de Paulo Tibúrcio dos Reis, o Paulinho Baeta, a alma do Brinca Quem Pode, é a mais conhecida e importante. Foi ele quem comandou a batucada do Brinca de sua fundação até o final de 1970. Sua casa se tornou ponto de encontro da escola a partir de 1954, no bairro Roseta – hoje Progresso -, afinal, até 1953 os encontros ocorriam na antiga sede da União dos Artistas, localizada no território do Xavante.

Paulinho Baeta ganhou seu status de músico renomado através de sua habilidade com o pistom que impressionava uma Laguna de outrora. Em 1997, no Dia Nacional do Samba, Baeta veio a falecer deixando um legado para carnaval lagunense e o Brinca Quem Pode, sendo uma figura de liderança para a “Escola do Povão”.

Na evolução do carnaval de rua lagunense, os blocos começaram a se inspirarem nas escolas de samba do Rio de Janeiro a partir da década de 1960, mas não totalmente. Os desfiles de bloco ocorriam no Jardim Calheiros Graça, que ganhou um palanque para as apresentações. A dinâmica de desfile era simples: os componentes subiam uma rampa, desciam e contornavam a XV de Novembro. Havia porta-estandarte, carros alegóricos, encenações… e por ai vai, entretanto, ainda não eram escolas de samba da forma que conhecemos.

A dinâmica de desfile de escola de samba ganhou força após 1969, através do discurso do radialista José Manoel Vicente, que fez do Vila Isabel a percursora deste modelo em Laguna, semelhante ao Rio de Janeiro. A imposição dessa nova metodologia de desfile ocorreria oficialmente em 1980, através de um decreto que obrigou os blocos a virarem escola de samba. O Brinca Quem Pode foi um desses blocos.

Desfile de 2006 na Rua Gustavo Richardo - Imagem: Willian dos Reis
Desfile de 2006 na Rua Gustavo Richardo – Imagem: Willian dos Reis

O Brinca não figurou nas primeiras colocações nos anos de 1980, o que acabava mais reservado às escolas de samba que tinham um maior aporte financeiro. Naquele período da década de 1980, o Brinca não portava da figura de um carnavalesco, e sim da criação do desfile a partir do samba-enredo. Para o visual da escola, havia a inspiração das fantasias do Rio de Janeiro.

Entre 1987 a 2006, os desfiles passaram a ser na Rua Gustavo Richard, no centro histórico da cidade. Foi naquele chão de paralelepípedos que o carnaval lagunense se transformou. Diversas personalidades ganharam destaque dentro do carnaval, como Joel dos Reis, Mestre-Sala do Brinca, que se tornou referência do quesito ao público geral. Também foi naquele chão que o Brinca desfilou pela primeira vez com a águia no abre-alas, em 1989, símbolo da agremiação inspirado na Portela.

Sob a presidência de Edemar Nascimento (Quico), a metodologia de fazer carnaval no Brinca mudou. Surgiu a figura do carnavalesco na agremiação, importando as fantasias de fora e confeccionando as alegorias na cidade. Foi através dele também que o Brinca Quem Pode alterou seu nome de “Academia Carnavalesca Esportiva e Recreativa Brinca Quem Pode” para “Academia Carnavalesca Recreativa Escola de Samba Brinca Quem Pode”. Com a não realização dos desfiles de 2002, o ano de 2003 foi marcado pela definição das escolas de samba que desfilariam em Laguna: Mocidade Independente do Bairro Progresso, Xavante, Brinca Quem Pode, Os Democratas e Vila Isabel. As mudanças de Quico impulsionaram o Brinca para um vice-campeonato em 2003 e os títulos de 2004 e 2006, fechando com chave de ouro a fase da Gustavo Richard.

Desfile de 2010 - Imagem: Livro Willian dos Reis
Desfile de 2010 – Imagem: Livro Willian dos Reis

A partir de 2007, foi erguido um sambódromo. A fase só durou de 2007 a 2013, tornando-se apenas um período breve de desfiles que tinham um grande potencial não aproveitado pelo poder público. Nesse período, o Brinca chegou a homenagear Paulinho Baeta em 2012, e terminou num vice-campeonato, mas acabou sendo o melhor resultado da agremiação no sambódromo, junto ao ano de 2007, também 2° lugar. Após 2013, o carnaval de Laguna perdeu seu espaço no asfalto do sambódromo. Os desfiles não foram mais realizados de forma competitiva até 2026.

Com o retorno da competição em 2026, o Brinca acabou na penúltima colocação com 177,1 pontos, mas promete dar a volta por cima em 2027. No momento da coluna, a agremiação já divulgou sua sinopse oficial, seu samba-enredo, sua equipe de carnaval e conhece a posição de desfile. Sigam o Brinca no instagram, a rapaziada de lá está fazendo um trabalho bem bacana.

Agradeço a Willian dos Reis Martins, que a partir de seu livro pude conhecer a história do Brinca Quem Pode e do carnaval lagunense, tornando-se uma grande referência em meus projetos acadêmicos na abordagem da folia de Laguna. Também mando um abraço à minha amiga Débora Rosa, uma guerreira e apaixonada pela escola.
A história do Brinca Quem Pode é uma das mais emocionantes do carnaval catarinense e resgata uma Laguna do passado, portando a alcunha de “Escola do Povão” e honrando as histórias dos grandes personagens que passaram pela agremiação.

“Eu sou do Brinca Quem Pode
Pois ele mesmo é o ta
No samba, frevo e na marcha
Nas coisas de carnaval
Brinca Quem Pode, Brinca Quem Pode
Quando ele sai, a cidade se sacode
Deixa de lado a fantasia
A sua batucada só nos traz muita alegria”

Marcha composta ao Brinca Quem pode na década de 1960 por Mauro Camilo.

Em breve retorno para falar mais do carnaval catarinense e do Brasil.
Um abraço!

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