Mas o que acontece quando uma mulher ocupa um espaço que antes lhe era negado? Quando ela transforma presença em permanência, quando deixa de ser exceção e passa, pouco a pouco, a ser regra? Eu penso nisso com frequência, talvez porque também seja atravessada por esse movimento. Hoje escrevo sobre um lugar que, por muito tempo, foi narrado sem a gente. E não por falta de história, mas por falta de escuta.

Estamos nas coroas e nos bastidores, na avenida e no barracão, na costura que atravessa a madrugada, na baiana que gira carregando história. Estamos também, cada vez mais, onde antes não nos queriam: nas mesas de decisão, nos cargos de liderança, na criação. Senti isso de perto ao ser a primeira mulher a compor a mesa do Samba-Enredo Podcast — um marco que me atravessou com orgulho, mas também com um senso claro de responsabilidade. Porque não bastava ser a primeira. Eu não queria ser a única.
É na quadra, na rua e nessas mesas que esse enredo segue sendo escrito. Com resistência, com insistência, com coragem. O caminho ainda está sendo aberto, mas já não há retorno possível. “Enredo Delas” é sobre isso: sobre reconhecer que o carnaval que emociona na avenida existe porque há mulheres escrevendo suas histórias dentro e fora dela.








