Valter Santos: o lendário compositor de sambas do Continente

A Coluna Memorial presta homenagem a um dos grandes compositores do Carnaval de Florianópolis e que atuou nas escolas do Continente nas décadas de 1970 e 1980. Refiro-me ao manezinho raiz Valter Santos, nascido na Maternidade Carlos Correia em 23 de agosto de 1936. Há algum tempo que andava atrás desse importante personagem, mas esbarrava nas poucas fontes disponíveis e na carência de informações acerca do seu paradeiro. Mas a sua história é grandiosa, apesar da historiografia carnavalesca não dar a devida projeção e culminando no apagamento dos nossos artistas do samba.

Compositor Valter Santos, hoje com 92 anos, em casa - Foto: Alzemi Machado
Compositor Valter Santos, hoje com 92 anos, em casa – Foto: Alzemi Machado

Consegui localizá-lo graças às articulações do Mestre Dú, Badeko, Helinho Sol, Vicente Marinheiro e Sandra Mara da Luz, até chegar em Elzinha, eterna madrinha da bateria da Coloninha, que prontamente repassou o contato de uma das filhas. A garimpagem deu certo e coube à filha Rosângela gentilmente repassar o número telefônico. Minha emoção equiparou-se a conquista de um troféu: conversar com Valter, o compositor das escolas da região continental!

Recentemente completou 92 anos, comemorados com uma festa regada a cervejas e samba que fechou a rua da comunidade do Monte Cristo, bairro onde reside. Simpático e afável, e com uma memória equivalente à somatória de muitas enciclopédias Barsa, Mirador e Delta-Larouse, revelou detalhes de sua trajetória em quase duas horas de conversa com o colunista.

Filho do comerciante Pedro Dionizio dos Santos e da dona Christina dos Santos, teve 10 irmãos que se criaram na Rua Anita Garibaldi, Prainha e na Rua Olavo Bilac, no Estreito. Estudou no Grupo São José e, ao ingressar no Exército, inclusive, serviu com Armandinho Gonzaga, fez escola de paraquedismo no Núcleo de Divisão Aéreo Terrestre localizado no Rio de Janeiro. Após dois anos na Cidade Maravilhosa, foi transferido para Curitiba.

A passagem pelo Exército durou 10 anos. Com vocação militar, ingressou na PM de Santa Catarina em 1965, ficando até 1980 quando se aposentou como 3º Sargento. Foi ainda Delegado na cidade de Porto Belo de 1970 a 1972. Constituiu um núcleo familiar com sete filhos e perdeu a contagem do número de netos e bisnetos.

Uma honra encontrar e conversar com Valter Santos

Revelou que não gostava de samba e de Carnaval. Quando adolescente, o irmão João – apelidado de Nino – este sim um amante do Carnaval, fundou no início dos anos de 1950 uma escola de samba – a Mangueira. Avesso a roupas com listras, foi “forçado” a ser o porta-estandarte, mas na noite do desfile abandonou quando viu a fantasia: uma camiseta com listras miúdas! Porém, o Carnaval foi mansamente envolvendo-o.

Compôs a comissão de frente da Copa Lord e da Os Protegidos da Princesa, em companhia dos amigos Marinho e Ênio Norberto. No Copa, participou de ensaios na bateria sob comando do Mestre Loro. Pegou o “footing” na Praça XV e vivenciou na pele e na alma o preconceito racial, quando os negros não podiam caminhar na mesma calçada com os brancos, sendo obrigados a se deslocarem para a calçada da Praça onde ficam os táxis.

O preconceito era estendido também aos clubes sociais. Impedidos de dançarem nos clubes existentes, frequentou o único clube negro na área central – o Brinca Quem Pode, localizado num casarão na Conselheiro Mafra, próximo ao antigo Moinho Joinville, atual Casas da Água.

De espírito ativo e comunitário, evolveu-se com o futebol fundando e presidindo o Capoeiras Esporte Clube, também ocupou os cargos de diretor social e presidente do tradicional clube recreativo e de futebol Flamengo de Capoeiras e do Clube 14 de Agosto na Procasa. 

A partir da década de 1970, estabeleceu laços afetivos e autorais com o samba. É de sua autoria o samba-enredo “Marquesa de Santos”composta em 1976 para o desfile dos Filhos do Continente. Em 1977, emplacou dois sambas:“Menininha do Gantois” para o Império, homenageando a famosa e admirada Yalorixá baiana, e “Navio Negreiro” para a Lufa-Lufa, samba voltado à temática do enredo abordando Abolição da Escravatura, dando ênfase ao poeta Castro Alves, assim presente na composição:

“Foi com seus poemas fascinantes
Que teve seus dias marcantes
Na história do meu Brasil
Quantas poesias são cantadas
Até imortalizadas
Do poeta dos sonhos mil
Vai Dalila…
É bem longa a tua estrada
É suave a descida terminada
Em báratro cruel
Julguei-te estrela
Eras pirilampos
Em meio  a cerração
Ho, Ô, Ô,Ô (Bis)
O Queri, O Maria, O Chifrim
Os seus nomes era assim/Barcos da Escravidão
Em seus porões amontoados
Seus lamentos abafados
Pelas fortes ondas do mar
Ho,Ô,Ô,Ô
A nossa escola
Canta com empolgação
A Castro Alves
Poeta da Abolição (Bis)”

Em 1978, mais uma vez foi o autor dos sambas “Vitor Meirelles” (Império do Samba) e “Fundação de Florianópolis” (Os Filhos do Continente). Revelou que ao fazer composições abordando temáticas relacionadas a personagens ou fatos históricos de Santa Catarina, as fontes utilizadas incluía a leitura das obras do historiador Osvaldo Rodrigues Cabral, e procurava as pedras do Itaguaçu e da Praia das Palmeiras o ambiente tranquilo para o processo criativo das composições.

Valter Santos e a velha guarda da Coloninha

Um dos seus últimos trabalhos autorais foi o samba-enredo “Era uma Vez…o Sítio do Pica-Pau Amarelo”, que marcou o retorno da Unidos da Coloninha no Carnaval de 1983. É de sua autoria a célebre frase “a Unidos adormeceu criança e acordou adulta”! Além de autor da letra e da música, foi o puxador na Passarela da Paulo Fontes do histórico samba:

“Pirlim pim pim/Pirlim pim pim (Bis)
Para o mundo encantado
A palavra era assim
Glória viva neste Carnaval
Unidos com alegria (Bis)
Vem mostrando triunfal
100 anos de Monteiro Lobato
De histórias que o mundo encantou
Ainda me lembro
Dos meus tempos de criança
Das histórias que vovó contou
Existia um sítio encantado
Cheio de fantasias
Bruxas, Saci-pererê, ê,ê
E Cuca que faz a gente tremer
Tia Anastácia,Jeca Tatu e Emília
Boneca de muito sururu
Sabugo de Milho em homem virou
Além de Visconde era muito inventor”

Veja e ouça o samba de 1983

O samba fez muito sucesso, tanto que recebeu o prêmio de melhor compositor e intérprete na “Festa dos Campeões”, evento promovido pela TV Catarinense e Prefeitura.

Além das escolas de samba, compôs em 1982 o samba “Gente Nossa” para o Bloco Energia Radiante. Em 1983, compôs “Carnaval Total” para o Bloco Pinta e Borda e “Histórias das Mil e Uma Noites” para o Bloco Arabikus. Na Unidos da Coloninha, integrou a direção de harmonia e a bateria tocando chocalho, conforme declarou Mestre Dú: “Seu Valter tocou durante muitos anos um chocalho grande de minha propriedade, instrumento histórico que tem uma forte carga afetiva, pois foi com ele que iniciei a minha trajetória musical”.

Fez parte da Velha guarda da escola, participando ativamente dos eventos e contribuindo para a divulgação da agremiação. Quando perguntado qual o samba de sua autoria que mais o encantou, não pensou duas vezes: “Foi o samba Marquesa de Santos, inclusive a escola de samba paulistana Camisa Verde e Branca quis levar para que interpretasse no seu desfile”, declarou orgulhoso após cantar emocionadamente a letra:

“Após o Grito do Ipiranga
Que o futuro Imperador
Viu Domitila de beleza sem igual
Levou de São Paulo para a Corte Imperial
Foi dama do Paço
Viscondessa e Marquesa de Santos
Com riqueza e encantos
Quanta gente ajudou
E com seu gesto nobre
Ajudou os estudantes pobres
Até mesmo o Carnaval
Os Filhos do Continente irreverente
Presta  a sua saudação
Ô, Ô, Ô, Marquesa de Santos
Foi a favorita do imperador
Ô, Ô, Ô, Marquesa de Santos
Foi a favorita do imperador…Após…”.

Na realidade, nós é que agradecemos e ficamos orgulhosos pela sua valorosa contribuição às escolas do Continente e ao Carnaval da cidade. A cidade rende-se aos seus pés, querido Valter!

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