Nesse tempo em que fiquei sem escrever por aqui, muita coisa aconteceu. Hoje quero trazer um panorama pessoal do que já temos em mãos.
Vou analisar os sambas que já possuem gravação com seus intérpretes oficiais, porque, enquanto isso não acontece, mudanças ainda podem surgir. O Jardim das Palmeiras, por exemplo, anunciou a saída de Guilherme Partideiro após a divulgação do samba gravado.
Império Vermelho e Branco
(Parceria de Tiganá, Anderson Queiroz, Rafael Leandro, Cesão Farias, Duh Romão, Jailson Dupan, Petoco Show e Neném do Banjo.)
Samba de fácil compreensão e com uma melodia gostosa. Tem tudo para ficar na cabeça de quem ouve. Se a escola souber trabalhar bem o samba, pode surpreender na Nego Quirido.
Sinto falta de uma interpretação mais forte, algo que ainda pode ser trabalhado até o Carnaval. No geral, é um resultado satisfatório e com potencial de crescimento.
A bateria deve ter um bom espaço de protagonismo. O samba pede isso.
Acadêmicos do Sul da Ilha
(Parceria de Binho Acadêmicos, Felipe Vasco, Jacson do Cavaco, Júlio César, Rafa Cavaquinho, Ricardo Martins, Thiago Medeiros e Wilson Bizzar)
Fruto da junção de dois sambas, o samba do Acadêmicos do Sul da Ilha, na minha opinião, é morno. Mas o refrão do meio é muito forte e provavelmente vai explodir nas arquibancadas da passarela.
Ao mesmo tempo, isso pode ser um ponto de atenção para a diretoria. A escola pode cantar o refrão com muita força e não manter a mesma intensidade no restante do samba, o que pode acabar prejudicando no quesito harmonia.
Acho que esse é o principal cuidado que a escola precisa ter. Além disso, esse samba pede justamente o contrário do que eu apontava no samba do Império Vermelho e Branco. Aqui, a interpretação precisa ser mais melódica e menos “emotiva”.
É um samba que exige tecnicamente do intérprete e vai depender de uma boa atuação para funcionar bem na avenida.
Embaixada Copa Lord
(Parceria de Fred Inspiração, Gui Cruz, Imperial, Jean Leiria, Nellipe Costa, Tabajara Ortiz, Wagner Amaral, Wilson Silva e Willian Tadeu)
Mesmo com um enredo marcado pela melancolia das despedidas e pela emoção, a Embaixada Copa Lord conseguiu fazer, na minha opinião, o melhor samba do Carnaval de Florianópolis em 2027.
O grupo de compositores conseguiu colocar no samba tudo o que o enredo pede e, ainda assim, manter uma leveza na medida certa para encerrar um desfile de sexta-feira.
As exaltações à escola, tratada como uma morada segura e de liberdade, são a cereja do bolo de uma canção muito bem pensada.
Além disso, quando o intérprete também é compositor, a segurança na atuação acaba sendo diferente. Nellipe está muito bem e muito seguro na condução do samba.
O único ponto que não me agrada é o trecho “E quem ficou viu chegar a imigração…”. Essa parte não me soa bem aos ouvidos.
Dascuia
(Parceria de Rafael Lima, Júlio Assis e Rafael Gigante)
O samba não acompanha a complexidade e o potencial do enredo. Na minha opinião, falta personalidade e, principalmente, mais reconhecimento ao próprio Arrasta Ilha.
Poucas coisas na obra me remetem a essa expressão social tão forte de Floripa, que chega a funcionar quase como uma contracultura quando a gente olha para o histórico de Santa Catarina e para a relação de parte da população com a cultura nordestina. Falta ritmo. Falta Maracatu.
Na gravação, a interpretação também traz pouco brilho para a obra. Mas acredito que, ao vivo, Leonardo Bessa ainda possa crescer e elevar um pouco esse samba.
Unidos da Coloninha
(Parceria de Bokeira, Rhuan Cunha, Memi, Thiago Oliveira, Badeca, Mangaya e Edinho Love e Parceria)
Apesar de enxergar alguma margem para crescimento, eu não gostei do samba. A impressão que fica é que tentaram colocar a vida inteira do Dica dentro da canção. Todo samba que conta a trajetória de alguém passa por esse desafio, mas, na minha opinião, a Coloninha não conseguiu resolver isso bem.
O samba quer falar de muita coisa e, no fim, acaba se desenvolvendo muito pouco. Também sinto falta de um refrão do meio mais forte, que ajude a levantar a obra.
A comunidade vai precisar abraçar esse samba e cantar a plenos pulmões para fazer com que ele cresça na avenida. E força para isso a Gigante do Continente tem de sobra. Não seria a primeira vez que a Coloninha consegue elevar o nível de um samba com a força da sua torcida.
Os Protegidos da Princesa
(Parceria de Edsoul, Rafael Tubino, Diego Bodão, Juninho Zuação, JP Orlow, Andrei Alemão e Jadson Fraga (In memorian)
O samba consegue trazer a grandeza de Solange Adão e está à altura da responsabilidade de falar sobre uma mulher que deixa marcas por onde passa. Tenho certeza de que a própria Solange e a comunidade do Morro do Mocotó estão felizes com a homenagem. E a comunidade, inclusive, já abraçou o samba.
Tem tudo para ser um dos mais cantados da Nego Quirido, e merece. Ainda mais porque a Protegidos deve fechar o desfile de sábado e precisa de uma canção que mantenha o astral lá em cima para encerrar a noite com chave de ouro.
Outro destaque é a atuação do intérprete Lu Astral na gravação. Foi muito bem e espero que, ao vivo, consiga manter ou até elevar a força que esse samba tem.
Os refrões são fortes e marcantes, mas o restante da obra não fica para trás. É samba para cantar de ponta a ponta.
Consulado
(Parceria de Dezinho do Cavaco, Adriano do Cavaco, Jacson do Cavaco, Rafael Leandro, Flávio Luiz, Júlio Souza e Arthur Rabello)
A bicampeã do Carnaval de Florianópolis está em velocidade de cruzeiro. O que a Consulado planta, dá. Mais uma vez, a escola acerta no samba-enredo.
É uma melodia que dá vontade de ouvir já imaginando a escola saltitando na avenida e cantando o samba por inteiro. O tema, apesar de pouco conhecido, se torna fácil de entender pela canção, muito bem conduzida na excelente atuação de Alan Cardozo, que mais uma vez entrega uma interpretação irretocável.
A escola do Caieira vive um dos melhores momentos em sua história. Tudo parece encaixar, a escola está coesa e tem tudo para fazer um grande desfile. E um grande samba só potencializa isso.
Os dois refrões são marcantes, fáceis de cantar e grudam na cabeça. Isso deve fazer bastante diferença na avenida. Além disso, é um samba com um baita potencial de crescimento.
Na minha opinião, está no top 3 até aqui, junto com Embaixada Copa Lord e Os Protegidos da Princesa. Mas, como eu sempre falo, esse ranking é flexível, porque samba-enredo também precisa de tempo de maturação.








