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AS BRUMAS DANÇAM SOBRE O ESPELHO DO RIO

O vento sul com chuva foi embora durante a madrugada. Um sol esplendoroso, então, iluminou o mar revolto naquela manhã de janeiro na Vila de Itajaí, um povoado de pescadores que nasceu ao redor de uma capelinha, no litoral de Santa Catarina.

Ao longe, a jovem Elisa avistou um barquinho envolto pelas desventuras do mar arredio. Trazia Severo, homem misterioso e fascinante, um pescador vindo de Desterro. Ele, marcado pelo sol e pela lida. Ela, doce e alva como a lua, donzela prometida a outro homem. Mas ambos, sob o mesmo céu, cruzaram seu destino na dança das marés. Como em tantas histórias de amores proibidos, nosso sol e nossa lua se apaixonaram e se amaram à luz dos dias e das noites, iluminados pelos astros que regiam aquelas terras: a maré e a pesca, a semeadura e a colheita, o tempo do trabalho e do mistério, da partida e da chegada.

Um dia, uma estranha notícia correu pelos cantos da vila: o Brasil estava em guerra. Ao lado da Argentina e do Uruguai, o império marchava contra o Paraguai num conflito pelo mando das terras e dos caminhos do sul. Era o começo de uma história manchada de sangue, que logo se refletiria no espelho das águas catarinenses. Para aquela gente, baionetas e canhões pouco diziam. Sabiam mesmo era enfrentar a fúria do mar. Porém, tudo mudou quando começou o recrutamento forçado em nome do imperador Dom Pedro II. Muitas famílias começaram a fugir rio acima com medo da guerra. Partiam da foz do Itajaí-Açu em silêncio, escondidos pelo véu da madrugada e pelas brumas que dançam sobre o espelho do rio, em busca de terras esquecidas além da vila de Blumenau.

Nosso casal apaixonado resolveu seguir os rumos daqueles aventureiros. Enquanto tantos partiam por aversão a tiros e bombas, Elisa e Severo eram movidos pelo medo das consequências de um amor proibido que geraria uma vida. E seguiram rio acima, desafiados pelas águas e pelos mistérios da mata. Depois de muitos dias e noites, encontraram uma área de remanso das águas, lugar onde o leito do rio parece morrer, mas a vida recomeça em esperança.

As cabanas improvisadas se multiplicaram e os habitantes enfrentaram bravamente o inverno. Eram açorianos e seus filhos, negros em liberdade e outras gentes simples, em comunhão com a natureza, que alimentava e curava, mesmo em sua rigidez fria. Esperavam o florescer da estação seguinte como quem espera com resiliência por um milagre. Quando chegou a primavera, a estação das flores, os ipês majestosamente coloriram de fertilidade o cenário. Prenunciava o renascimento, a fartura e a vida que desabrochava do ventre de Elisa.

O espelho do rio transformava-se num imenso palco onde o branco espesso esfarrapava-se e dançava lentos e maravilhosos balés, como quem quer ficar, assim, sem se decidir de uma vez a obedecer o sol e ir embora. Ah! Como era lindo espiar por entre as nesgas de bruma se a canoa de Severo já estava voltando, voar para os braços dele, ajudá-lo a carregar os peixes! Aquilo era vida, era realidade! O mar, por ora, era sonho, ficava para de tarde, para quando houvesse tempo.

E assim seguiram por muitos anos, relembrando com saudade a vida perto do mar. Construíram sua igrejinha rudimentar, dançaram seus bailes, cantaram o terno de reis, brincaram o boi-de-mamão e celebraram os natais. Cada reza, cada benzimento e cada canto eram alimento para a alma que não deixava o passado ser esquecido na neblina da memória. Todos compartilhavam a comida, que não faltava, mas não era exagerada. O que havia era de todos. Os tecidos das roupas eram simples e não existia distinção entre os moradores. Não havia ouro, prata ou qualquer forma de moeda gerando disputa ou cobiça. Cuidavam uns dos outros e eram felizes. Sem saber, pareciam viver a Utopia, sociedade sonhada pelo filósofo Thomas More alguns séculos antes.

A guerra acabou e eles só ficaram sabendo dois anos mais tarde, quando Hermann Blumenau e seus homens encontraram o Rio Morto, se encantando com aquele povoado escondido entre a névoa. Muitos voltaram para o mar, incluindo Elisa e Severo, guiados pela saudade de onde tudo começou. Quem ficou seguiu sua vida simples, caçando, pescando e colhendo, mas fazendo trocas com a vila de Blumenau. Em 1875, viram chegar levas e mais levas de imigrantes italianos que fugiam da fome e da pobreza, trazendo sonhos na bagagem, além de sua língua, seus ofícios e costumes. Vinham de Trento, que na época pertencia ao Império Austro-Húngaro, em mais uma onda de refugiados que as brumas acolhem. A vida mudou e a cultura dos novos colonos prevaleceu na região, onde todos foram integrados ao som de tarantelas e ao sabor de vinhos e polentas.

O Rio Morto, que acolheu o amor de Elisa e Severo e tantos refugiados de uma guerra que não era sua, permanece belíssimo, com seus pastos, lavouras e as brumas que dançam loucos balés sobre o espelho do rio. Às vezes, parecem fantasmas do passado dançando e trazendo consigo lembranças e presságios. As notícias não são boas. A humanidade segue semeando guerras, catástrofes, genocídios e tanto caos pelo mundo. Outras almas assustadas peregrinam por rios e fronteiras buscando um lugar para reconstruir seu ninho destruído.

Quando a maré do destino traz esses refugiados para cá, contemplam os ipês, que sempre vencem a frieza do inverno. Apesar de tanto ódio pelo ar, o amor floresce. Sejam bem-vindos! É uma pena que Elisa e Severo não estejam mais aqui para recebê-los.

Willian Tadeu – Carnavalesco

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