Os Protegidos da Princesa 2027: leia a sinopse do enredo

A Filha do Vento – A Força negra de Solange Adão

Muito prazer, sou Solange Adão!

Sou erguida pela força da Ancestralidade. Sou continuidade de passos que vieram antes de mim, de vozes que resistiram ao silêncio, de mãos que, mesmo feridas, nunca deixaram de construir caminhos. Hoje, eu invoco os meus. Chamo pelos que vieram antes, pelos que sustentam meu chão e alimentam meus pensamentos. Que se façam presentes nesta travessia, como força viva que pulsa em mim. Caminho acompanhada. Que meus orixás soprem em meus ouvidos coragem.

Que meus guias firmem meus passos nessa trajetória. Que toda a minha existência siga sendo atravessada por aqueles que me fundam, me formam e me fazem permanecer de pé. Eu sou legado. Eu sou continuidade. Eu sou levante!

Os Protegidos da Princesa vai contar o enredo sobre Solange Adão
Solange Adão é o enredo da Os Protegidos da Princesa em 2027

1º setor/Abertura – A Força que vem da Ancestralidade

Inicio minha história no chão sagrado de terra batida da casa do meu avô, meu guia de caminhada, meu Babalorixá. Foi no Congá, em sua casa de madeira e carregada de axé, que aprendi a saudar e reverenciar os Orixás. Ali, entre o cheiro da terra molhada e o som dos atabaques que ecoavam, minhas mãos pequenas começaram a entender o que é continuidade. Foi também naquele chão, sob seu olhar firme e ancestral, que aprendi a girar a roda. Na Roda dos Orixás nasciam inspiração para as Abayomis, feitas artesanalmente, tecido com tecido, nó com nó, costurando histórias e memórias que não podem se perder. Cada uma delas representando um Orixá e carregando suas histórias de reexistência no atlântico negro. Foi na casa do meu avô que aprendi que girar é retornar, e retornar é reencontrar os que vieram antes de mim. Foi ali que aprendi que primeiro devemos saudar Exu, nosso senhor das encruzilhadas, dos caminhos e da comunicação. Laroyê, Mojubá!

A Eparrey ela é Oyá, ela é Oyá
A Eparrey é Iansã, é Iansã
A Eparrey
Quando Iansã vai pra batalha

Todos os cavaleiros param
Só pra ver ela passar

Naquela roda, feita de mãos negras e saberes antigos, senti meu nome sendo chamado pelo vento. Foi lá que descobri meu Ori, meu orixá de cabeça. Sou filha de Iansã. E, desde então, compreendi que não caminho só, sou atravessada pela Senhora dos Ventos. Em mim, ela sopra inquietação e coragem. É ela quem me ensina a não aceitar o silêncio imposto pela cor, a não me curvar diante das estruturas que tentam conter minha existência. Sou coragem e transformação. Como o vento que não se aprisiona, aprendi a abrir caminhos onde antes havia muros, a transformar queda em travessia. Na força de Iansã, reconheço minha própria potência de reinvenção e transformação. Sou movimento e tempestade, sou continuidade.

2º setor – A Força das Minhas Raízes – Referências Negras

Nas paredes de minha casa a memória também respira. Ali, emolduradas em cores e traços, vivem imagens que anunciam quem eu sou. São fragmentos de um passado e de um presente que pulsa, um mosaico multicolorido em tons e memórias, onde cada representação carrega uma história e serve de inspiração na minha trajetória. Em meio a esses retratos, reencontro meu primeiro território: minha família. Berço de afetos, chão de aprendizagens, encruzilhada onde comecei a existir. Foi no colo de Tereza Maria Adão, minha mãe, e de meu pai Zacarias Izidora Adão, que o mundo se abriu em brilhos, chitas e rendas. No ritmo do carnaval, aprendi que a alegria é criação e um gesto carinhoso de resistência. Mamãe é memória viva, guardiã de saberes que se transmitem no toque, no olhar e no cuidado. É desse colo-território que brotam as sementes das minhas referências negras, florescendo como guias nesse meu caminhar.

É através de imagens, experiências e repertórios de quem sou, que emergem referências que são os pilares deste percurso. Entre papéis e o traçado de letras familiares dos tinteiros de madeira, encontrei a poesia de um Cisne Negro na antiga Ilha de Desterro. Foi pelas palavras de Cruz e Sousa que aprendi a reconhecer a força de uma escrita atravessada pela dor, pela resistência e pela insubmissão. Ao construir uma obra que permanece viva, me aproximei de sua poesia e de suas palavras que continuam abrindo asas sobre nós, reafirmando que a literatura resiste ao tempo e serve de instrumento de memória, resistência e transformação social, assim como Antonieta de Barros, que fez da educação sua estratégia de liberdade.

Com Antonieta aprendi a reconhecer na palavra uma força capaz de romper silêncios e transformar destinos. Nossa Maria da Ilha, entre os Farrapos de Ideias e a firmeza de sua atuação pública, defendeu a escola como direito e fez da escrita um gesto de coragem diante de uma estrutura que insistia em apagá-la.

Seus caminhos permanecem abertos, ecoando para além do tempo. Inspirada por sua trajetória vitoriosa, compreendi que ocupar espaços também é um ato de resistência. No percurso pelas artes cênicas, encontrei atores e atrizes cujos corpos e trajetórias dialogavam com a minha própria existência: a pele negra, o talento insurgente e a coragem de permanecer em cena apesar das tentativas de apagamento. Em Grande Otelo, reconheci muito cedo uma força que me atravessava. Quando seus olhos encontravam os meus através da televisão, havia em seu riso afiado uma complexidade àqueles que insistiam em reduzir sua arte a caricaturas.

Mesmo diante de uma indústria que buscava limitá-lo, Grande Otelo expandiu possibilidades, ocupando a tela com talento e inteligência. Ao me aproximar de sua trajetória, aprendi que colocar corpos negros em cena também é reinventar imaginários. Pude beber de sua fonte e subir aos palcos levando comigo sua presença e irreverência.

Inspirada por seu pioneirismo e sua resiliência, rememoro nossa Odara, Ruth de Souza. Em sua presença e em sua voz, a exigência inegociável da dignidade. Ao defender papéis que reconhecessem a humanidade e a complexidade de mulheres negras, a Senhora Mãe da Liberdade ergueu sua trajetória contra uma estrutura que insistia em nos relegar à submissão e ao silêncio. Sua luta moldou meus princípios e me ensinou a não aceitar qualquer lugar no campo da arte brasileira.

Como ela, busquei ocupar a cena com personagens que afirmasse a força, a beleza, o talento e a profundidade da mulher negra. Ruth em cena é a beleza da negritude. É o caminho da vitória de quem sentiu na pele a dor de um Brasil que busca silenciar nossos corpos.

No Morro do Mocotó, território carregado de histórias, conectei-me à obra de uma grande artista da cidade, Valda Costa. Em suas pinceladas, a negritude era retratada em paisagens catarinenses, como quem reivindica o próprio espaço que habita. Sua versatilidade e autenticidade me atravessaram e me impulsionou a trocar o branco da tela, pelas cores do campo imaginário criativo. Na pintura, compreendi que também é possível inscrever corpos negros como gesto político, tecendo, em cor e forma, elos de pertencimento que enfrentam o esquecimento.

É nas telas que também preservo memórias que tentam apagar, como tantas histórias, a exemplo de Valda, que não tiveram o reconhecimento devido em vida. Cada rosto, cada história e cada legado que habita minhas paredes também habitam meu corpo, minha escrita e meu sentir-pensar. E nesse encontro entre passado e presente, compreendo que lembrar é resistir ao apagamento. E afirmar quem eu sou é garantir que aqueles que vieram antes de mim nunca deixem de existir. Seguimos na luta.

3º setor – A Força que vem dos Palcos

Entre registros e recortes dos jornais que guardo com carinho, relembro minha trajetória no teatro e nos palcos com emoção e lhes faço um questionamento que me atravessa no tempo: Nos Palcos das artes, quais os papéis sociais destinados às nossas mulheres pretas na história? Em minha trajetória nos palcos, representei muitos personagens, apesar dos papéis subalternos dedicados e destinados sempre a gente de nossa cor. Fui à França de Molière e na devoção farsante do religioso Tartufo ganhei prêmios. Foi assim, ganhando os palcos, que viajamos por Santa Catarina exaltando muitas histórias de negritude. Imaginem vocês quantas histórias negras foram fundamentais para a construção desse território que habitamos.

Histórias como a de Gavita Rosa Gonçalves, eterna e incendiária paixão do poeta simbolista Cruz e Souza. Ao interpretar Gavita nos palcos, fui tomada por um delírio profundo, uma vertigem de dor e entrega. Atirei-me à cruel melancolia de sua existência, mergulhando na solidão e no sofrimento de uma mulher que combateu os amargores do mundo. Lutou contra a fome e a miséria, contra a violência invisível que devora os pobres e sufoca as mulheres e ainda assim permaneceu de pé enquanto pôde, feroz em sua humanidade. Gavita, flor ardente dos meus delírios, presença que me faz sonhar, a ti devo minha reverência eterna diante de um mundo que tantas vezes tentou te apagar.

Em cena, oportunizei questionar minha cidade. Construída sob signos e referências europeias, propomos fazer um giro a partir da atuação e importância de Negros em Desterro, valorizando histórias, personagens e as contribuições das populações negras na formação da cidade. Em Gota d’água, travestida de homem, me reinventei. Usando a linguagem do subúrbio, entre bares e botequins das vielas de uma favela e com a proteção de Zé Pilintra, com seu terno bicolor, seu chapéu panamá e sua malandragem, dei vida a Chulé, um exímio boêmio. Saravá Seu Zé, Salve a Malandragem!

Com Rosa, em Crisálida, veio a transformação, abrindo suas asas como uma borboleta para modificar as estruturas sociais e abrir novos horizontes para jovens surdos no Brasil em um novo caminho de possibilidades. Em Xapanã, com a proteção de Omolu, orixá da cura e da terra, dançamos ao som dos seus batuques e atabaques. Atotô, meu pai! Já no Circo da Alegria me vesti de vendedor de pipoca, coloquei uma jardineira azul marinho e uma camiseta listrada e fiz a alegria da plateia.

E assim, entre cortinas que se abrem e os tambores e atabaques que ecoavam em minhas apresentações, que transformei o palco em território de denúncia e resistência. Cada personagem que interpretei rememora a tantas mulheres pretas silenciadas pela história e ainda assim impossíveis de apagar. Nos palcos, nossos corpos deixaram de ser margem para ocupar o centro da cena, reivindicando dignidade. Nossa arte é resistência.

4º setor: A Força que vem do Aquilombamento

Em minha casa, sempre recebi muitos amigos e companheiros de caminhada. É nesses encontros que formamos o que compreendo como Aquilombar, verbo que nos convoca e nos une, fortalece nossas identidades e faz ecoar a ancestralidade que nos atravessa. É acolhimento e construção coletiva, contribuindo na luta contra a violência e contra o racismo do nosso povo. É nesse convívio que construí minha trajetória como um espaço de coragem e resistência em diversos espaços desta cidade.

Entre encontros, conversas e parcerias, destaco os mais diversos aquilombamentos constituidos pelos movimentos negros, espaços onde me reconheci num movimento de construção coletiva. Cada encontro, um caminho de formação e o desejo de contribuir e aprender, compartilhar saberes e potencializar nossas vivências. É momento de união e de unificar nossas forças em busca de fortalecimento coletivo. Aos pés da igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, entre fitas e bandeirinhas coloridas, nasceu e se renova um lindo aquilombamento chamado Feira Afro.

Cada barraca erguida é formada por afeto compartilhado, em que se unificam as cores, as músicas e os artesanatos da cultura e história afro-brasileira. Em cada edição, artistas negros fazem ressoar seus talentos pelas ruas da cidade. É nessas trocas que surge nosso quilombo com Pegada Nagô, que permanece vivo e pulsante até os dias atuais, tecendo uma rede de apoio e resistência. Busco dentro desse aquilombamento a inserção da arte como caminho de afirmação ancestral. É por meio de apresentações teatrais, musicais, danças, poemas, contação de história, ecoar a potência de nosso povo preto, um levante de histórias que precisam se manter vivas.

Educadora, formada na rede pública de ensino, encontrei nas salas de aula forças para lutar e formei, junto aos meus alunos, um Quilombo constituído por letras e histórias de luta. Aos pés do Morro do Mocotó, compreendi, junto aos meus jovens e adolescentes que a educação é um ato de transformação social e o caminho para o nosso povo preto. Lado a lado com a realidade periférica da cidade, construímos novos caminhos. Transformamos folhas brancas em livros repletos de histórias de cores e sonhos.

Cantamos em Iorubá ao som de atabaques, construímos conhecimentos sobre a cultura afro-brasileira e superamos as barreiras institucionais antes da existência da Lei 10.639. Busquei em cada estudante caminhos de reconhecimento de suas trajetórias. Também foi na cultura historicamente marginalizada, vivida desde a infância, no seio familiar e no convívio com as escolas de samba que compreendi sua potência para a construção da nossa identidade coletiva. Foi nesse território que me reconheci e me engajei com a Protegidos da Princesa, entregando-me às suas cores verde, vermelho e branco.

No aquilombamento que se organiza na avenida, a presença negra deixa de ser margem e ocupa o centro. É a afirmação pública de existências que sempre resistiram. São corpos pretos em destaque que ocupam o palco da história.

Em minha fé, dedicada ao culto e resguardo dos meus orixás e da minha família de santo, transformamos nossa religiosidade em aquilombamento de resistência, em fortaleza na luta anti-racista. Sob as bênçãos e a proteção do branco da paz de Oxalá, afirmamos nossa crença como fundamento de vida, nossa espiritualidade como força coletiva e nossa presença como ato político de permanência, preservando nossa crença, nossa fé e nossa espiritualidade.

Na minha família, o legado representa a continuidade de nossa história e o futuro que virá. Minha fortaleza diária, meu aquilombamento Adão. Dedico aqui, com carinho, orgulho e esperança, minha gratidão ao legado que segue pulsante em meu filho Lorran, que desde os primeiros passos na vida me contou que sou quentinha como o Sol, e o futuro que se faz presente através de meu neto Caetano, trazendo alegria e esperanças em nossas vidas e mostrando que nossa trajetória é pulsante e viva.

São esses aquilombamentos que moldaram minha vida e constituem a origem da minha força. Ela nasce da gratidão dos alunos, dos personagens que ganham vida no palco, dos coletivos de mulheres negras, dos artesãos, das escolas de samba, da família, das referências que me atravessam, dos orixás e de todas as pessoas que caminham comigo, somando existência e reexistência.

Sou uma mulher preta em constante construção, forjada na luta e no compromisso de manter viva a história, luta e conquista do nosso povo preto, impedindo que o esquecimento se aproxime. Carrego a convicção de que eu, Solange Adão, sou um aquilombamento de pessoas, afeto e ideias permanentes, não como um lugar fixo, mas como presença viva, em constante movimento que floresce no encontro e se reinventa no tempo. Eu sou legado. Eu sou continuidade. Eu sou levante. Sou Quilombo em movimento.

Este texto nasce de uma construção coletiva, tecida a partir dos encontros e trocas entre os carnavalescos Christian Fonseca e Fernando Constancio e nossa homenageada, Solange Adão.

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