Patrícia Fonttine, a pioneira

Há corpos que atravessam a avenida há corpos que rasgam ela ao meio para que outras consigam passar depois. Patrícia Fonttine é dessas. Antes dela, não existia o cargo de musa trans no carnaval de Florianópolis. E isso diz muito. Diz sobre quem sempre pôde ocupar o centro da festa sem precisar justificar sua existência. Diz sobre quem sempre foi autorizado a ser símbolo de beleza, desejo, glamour e pertencimento. Patrícia não herdou espaço. Há seis anos como musa trans do GRCES Dascuia, ela desfila permanência.

Patrícia Fonttine Musa Trans Carnaval de Florianópolis
Patrícia Fonttine ganhou concurso de musa trans – Foto: Gabriel Martins/Divulgação

Porque ser uma mulher trans, negra, nortista e artista em um país que insiste em matar mulheres trans não é somente existir, é sobreviver todos os dias ao preço que cobram de corpos como o dela quando ousam ser vistos. Existe algo profundamente violento quando a sociedade determina quais corpos merecem aplauso e quais merecem silêncio. Patrícia rompe isso na prática. O corpo dela na avenida não pede aceitação. Comunica presença. E presença, para pessoas trans, é uma linguagem profundamente política.

Talvez por isso sua trajetória ultrapasse o carnaval manezinho. Patrícia Fonttine inaugura a possibilidade de meninas trans olharem para a passarela e entenderem que também podem ser símbolo, referência, desejo, beleza e protagonismo sem precisar diminuir quem são. O que ela ocupa hoje não é somente um posto. É uma fresta aberta em uma estrutura que, durante muito tempo, foi construída para não enxergar determinadas existências.

Enquanto o país coleciona estatísticas de violência, elas seguem colecionando formas de continuar vivas. E vivas de cabeça erguida. Por isso, esta coluna também é saudação.

Salve Patrícia Fonttine. Salve Isa Cunha. Salve Shine Moura. Salve Natalia Lisboa. Salve Ayana Femme. Toda vez que uma mulher trans ocupa a avenida, ela não desfila sozinha. Leva consigo todas aquelas que vieram antes e abre caminho para todas as que ainda virão.

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