Mestre Rato, o corneteiro oficial do presidente JK

Caro leitor, se nas décadas de 60, 70, 80 ou 90 do século passado, alguém perguntasse nas lojas, bares e cercanias do Mercado Público por um tal de Nílton Eliseu da Silva, a grande maioria desconheceria! Mas, se procurasse pelo Mestre Rato, todos apontariam para uma das mesas situadas na Torre Sul, ali próximo ao saudoso Bar do Goiano, onde batia o “ponto”.

Mestre Rato Carnaval de Florianópolis
Rei Momo Hernani Hulk (E) e mestre Rato com troféu na mão – Foto: Acervo Édio Melo

Nílton Eliseu, tripeiro nascido em 27 de março de 1938 no Bairro de Fátima, carregando desde a infância a alcunha de “Rato”, que, segundo ele, por “pegar as frutas nos terrenos da vizinhança”. Não demorou muito para se tornar o “Mestre Rato”, e assim se tornar um dos gigantes no comando das baterias do Carnaval, terra de muitos deles, como Natalino, Zé Luís, Dica, Alcides, Isaac, Argeu… Mas foi, principalmente, com o mestre e compositor Camargo que travou uma sadia rivalidade nas décadas de 70 e 80, em disputas que mesclavam entusiasmo, autenticidade e criatividade nos breques e viradas das baterias.

Esporte e percussão foram as suas grandes paixões. Bem antes de ser ritmista, foi jogador de futebol e dos bons: centroavante do Tamandaré Futebol Clube, agremiação com sede na Rua Tereza Cristina, no Estreito, chegando a disputar o Torneio Citadino. Chegou a jogar profissionalmente no Urussanga e no extinto Britânia, de Curitiba. Dotado de vigor físico, foi também remador pelo Riachuelo, obtendo o 3º lugar na Regata Internacional realizada na Baía Sul. Mas a percussão fazia-o vibrar e com tenros 15 anos já manobrava instrumentos como tamborins e timbas.

A estreia no Carnaval veio com Os Filhos do Continente em volta da Praça XV, considerado o melhor repinique nos desfiles de 1964 e 1965. O feito chamou a atenção da diretoria da Protegidos que o levou em 1966, ficando cinco anos no repinique, além de auxiliar o Mestre Alcides. Com o falecimento do Mestre em 1972, assumiu o comando até 1977, conquistando títulos e a nota máxima nos desfiles. Porém, o “passe” era disputado e Armandinho Gonzaga o carregou para a Copa Lord em 1978 e 1979.

Retornou para o Continente em 1980, encontrando abrigo na Lufa-Lufa/Acadêmicos do Samba, no Bela Vista. Na escola de samba presidida por Jacinto Bittencourt encontrou parceiros como o músico Luiz Henrique Rosa. Um fato curioso aconteceu no desfile na Paulo Fontes em 1982 e chamando a atenção: a Lufa-Lufa atrasou o desfile por quase uma hora, irritando o público, dando início a uma sonora vaia. Aí entrou em cena o Mestre Rato, que postou a bateria próxima das arquibancadas dando início a um show, não restando ao público ovacioná-lo efusivamente.

Disciplinador, não facilitava a vida dos ritmistas que eram cobrados nos ensaios. Segundo o amigo Ronaldo Linhares, um das centenas de ritmistas que passaram pelas mãos e ouvidos do Mestre: “o Rato era exigente, dava esporro, tinha um ouvido muito aguçado. Conseguia observar no meio do grupo de ritmistas quem desafinava, quem deu mancada. Chegava e ia direto no cara e dava uma reprimenda, mas ele era muito bom”.

Em 1986 e 1987 comandou a bateria da jovem escola Quilombo dos Palmares, a convite do presidente Almir Passos. Em 1989, retornou para a Acadêmicos do Samba e quatro anos depois foi contratado pelos Protegidos da Princesa, assegurando mais uma vez a nota dez na bateria. Além das escolas de samba, Mestre Rato dirigiu a bateria dos blocos Ânsia de Vômito, Sou + Eu e integrou o conjunto “Los Angeles Boys” tocando timba, que para ele devia ser tocada “como se acariciava uma mulher”.

A partir de 1996 esteve a frente da bateria do Berbigão do Boca, interrompendo o comando em 28 de setembro de 2022, data do falecimento. Em 2024, foi oficializado e eternizado como o 42º boneco do Berbigão.

E como se tornou corneteiro de Juscelino Kubitschek? Ao servir à Pátria, e devido a estatura e porte atlético, foi convocado para compor o 1º Batalhão de Polícia do Exército sediado no Rio de Janeiro, órgão responsável pela segurança dos presidentes. Descoberto o talento musical, integrou a Banda de Cornetas e Tambores e logo galgou o cargo de 1° Corneteiro Oficial do Presidente Juscelino, fazendo as honras diárias em suas entradas e saídas do Palácio do Catete. Iluminado, nosso Rato já nasceu Mestre! Alguma dúvida?

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